Uma historieta sobre o cotidiano das pessoas com deficiência
Sábado, mais um dia comum cheio de possibilidades. Carregando em suas 24 horas as oportunidades de transformação e mudanças positivas que podem ser feitas em busca de uma sociedade mais empática e justa. Para aqueles que acreditam que algo pode melhorar. Para aqueles que acreditam que gentileza gera gentileza. Somente uma pessoa com deficiência visual compreende a abnegação que é deixar-se conduzir.
Acordo cedo. Minha esposa, que também é uma pessoa com deficiência visual, precisa passar por um exame médico. O médico havia solicitado a realização desse exame há alguns dias. Ela passou a noite se preparando. Eu, como de costume, acordei cedo para fazer o café da manhã e precisava levar meu amigo de quatro patas para o banho.
Feito isso, tomei meu café: pão com passas e ovos. Minha esposa estava em jejum e, por isso, não comeu nada. Ainda deu tempo de preparar um chá de erva-doce com chá verde. O dia estava apenas começando e, com ele, os desafios que poderiam ser menores se lutássemos por uma sociedade mais solidária.
Gosto de preservar minha independência, por isso tento depender o mínimo possível das pessoas. Mas sei aceitar ajuda sem problema algum — e ainda bem que existem pessoas dispostas a colaborar e doar um pouco do seu tempo. Fui levar meu cachorro, que, a propósito, não é um cão-guia, para o banho. Confie em mim: ele estava precisando! Peguei minha bengala e me mandei.
Lá fui eu: bengala de um lado, cachorro do outro. Como se não bastassem as calçadas cheias de buracos e com mato crescendo onde menos se espera, tinha um cachorro puxando para todos os lados como se nunca tivesse visto a rua. Ele sempre faz isso — e essa alegria dele em viver o momento como se fosse o primeiro me contagia. Então, acabo relevando o fato de ele ser desobediente.
Obstáculos e mais obstáculos: placas no meio das calçadas, postes de energia mal posicionados, buracos e uma escola movimentada. Aparentemente, estava acontecendo uma reunião de pais e mestres. Um cheiro horrível no ar e um barulho que parecia de aspirador de pó industrial. Presumi que a escola estava sendo limpa. Um pouco mais à frente, mais obstáculos e pessoas passando. Pasmem: um boi em tamanho real, eu imagino, no meio da calçada! Escadas com degraus mal feitos e, enfim, a petshop.
O mesmo caminho de volta para casa após o banho do cachorro — com uma surpresa a mais. Mais ou menos na metade do percurso, alguns carros haviam subido na calçada. Isso mesmo, carros em cima da calçada! “Pra você não deve haver problema nenhum…” — com certeza, para o ceguinho, será mais um. Para quem enxerga, talvez seja fácil desviar. Talvez veja de longe e calcule automaticamente como sair dali. Mas, meus caros, para o cego não é bem assim. Quando percebi, estava com meu cachorro ao lado e eu no meio da pista tentando desviar dos carros, colocando-me em risco. Até que ouço alguém:
— Pra cá, pra cá!
— Poxa, estacionaram em cima da calçada.
— Não… não… é rapidinho. Só estamos instalando uma barraca aqui.
Vai tomar no meio do olho do seu c*! Coloquei minha vida em risco porque alguém achou conveniente estacionar em cima da calçada. “Calma”, diriam. “O cara só está trabalhando”, argumentaria outro. Eu, com toda a paciência do mundo, diria: vai se f*! Espero que compreendam minha indignação, senhoras e senhores. Gostaria que entendessem que esse ocorrido não foi o primeiro e não será o último. Pessoas, em detrimento da harmonia social e do direito de ir e vir de qualquer cidadão, justificam suas más condutas dizendo: “é rapidinho”, “não vai atrapalhar”. Olham apenas para si e não pensam no próximo.
Não sei se para você isso soa como algo pequeno ou sem importância. Mas tente se colocar no meu lugar e exercitar a empatia. Imagine ser uma pessoa com deficiência visual no meio de uma pista movimentada e cheia de carros porque alguém, por conveniência, decidiu estacionar sobre a calçada.
Cheguei em casa, um pouco nervoso, confesso. Limpei a garagem mais uma vez para deixá-la cheirosinha para o meu cachorro, que acabara de tomar banho. Entrei e fui me lavar para levar minha esposa ao médico. Depois de tomar banho e organizar as coisas, saímos e chamamos o Uber. Como de costume, quando o carro chegou, consegui localizá-lo e abri a porta para minha mulher entrar. Cumprimentei o motorista e a viagem seguiu. Ao chegarmos ao destino, perguntei:
— Estamos no bloco B?
— Aqui é o bloco E.
— Precisamos ir ao bloco B.
— Estou onde a localização do aplicativo está mandando.
— Tá bem, irmão… muito obrigado!
Depender dos outros continuamente, de maneira tão concreta, é cansativo — além de ser uma constante batalha contra o próprio ego. O tom do motorista já me deixou claro que ele não moveria uma palha para ajudar. Saltamos do carro, aparentemente em qualquer lugar. Fui com a bengala à frente da minha esposa, para que ela não se machucasse caso houvesse algum buraco ou obstáculo. Dito e feito: alguns passos à frente, bati a cabeça numa placa. Tentei voltar e encontrar a recepção. Ao localizá-la, ouvi do recepcionista:
— Não posso ajudar. Não tem ninguém para ficar aqui.
A raiva me consumiu na hora. Como é possível que prédios com clínicas não tenham recepcionistas minimamente capacitados para lidar com pessoas com deficiência? Não sei vocês, mas eu espero chegar a um centro clínico e encontrar profissionais que saibam lidar com a diversidade. Quantos pacientes devem passar por ali todos os dias?
Saí da recepção com a bengala, minha esposa atrás — tadinha… morrendo de fome, ainda em jejum, e super agoniada por causa dos remédios. Até que passou uma mulher. Pedi ajuda. Ela hesitou um pouco. Talvez não por má vontade — imagino que estivesse cansada, parecia ter saído do trabalho. Relutante ou não, nos ajudou a encontrar o bloco certo e nos deixou na clínica. A mulher foi gentil, mas anseio pelo dia em que pessoas com deficiência tenham dignidade assegurada — e não fiquem sempre dependentes da boa vontade alheia.
Na clínica, no balcão da recepção, após entregarmos os documentos para o exame, perguntamos:
— Pode nos ajudar a sentar, por favor?
— Tem cadeira ali, olha!
— Nós não enxergamos, moça… pode nos ajudar?
Estávamos com as bengalas nas mãos e entramos conduzidos por outra pessoa. Falta de sensibilidade e empatia da recepcionista ou estou exagerando? “Ah, às vezes a pessoa estava distraída.” Vai tomar no c* de novo! Que distração conveniente! Depois de receber nossos documentos e fazer a ficha, será que ela não percebeu que éramos pessoas com deficiência visual? Engraçado como quem enxerga sempre tenta justificar a própria ignorância e insensibilidade.
Enfim, minha esposa fez o exame e tudo correu bem. Fomos agraciados com uma enfermeira extremamente simpática, que nos acompanhou até o térreo e ainda nos ajudou a chamar o Uber. Ela nos contou a seguinte história:
— Não sei se comentei com o senhor, mas minha mãe também é uma pessoa com deficiência visual. Ela perdeu a visão quando eu tinha cinco anos e criou minhas irmãs e a mim sozinha. Nosso pai faleceu e ela se tornou viúva. Sabe? Ela é minha heroína, minha Mulher-Maravilha. Tenho muito orgulho dela!
Senhoras e senhores, não sei se existem ou não coincidências na vida. Só sinto que não estamos vivos por acaso. Talvez a vida tenha um propósito e talvez o nosso papel seja aprender com ela. Eu, como homem, jamais saberei o que é ser uma mãe cega de três filhas e, ainda por cima, viúva. Mas a história dessa mulher, contada por sua filha, me deu ânimo para seguir com a vida que tenho e enfrentar as barreiras que ela impõe. Oxalá eu tenha essa força para lidar com as vicissitudes do mundo como essa mãe cega.
À todas as mães, com amor — e, em especial, à minha, que me deu a vida!
👏👏👏👏
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